O retorno de “Mestres do Terror” e “Calafrio”

Por Edgar Indalecio Smaniotto

Não existe leitor de quadrinhos de terror que não conheça as clássicas revistas Calafrio e Mestres do Terror, editadas por Rodolfo Zalla, através da Editora e Estúdios D-Arte.  As revistas Mestres do Terror e Calafrio estiveram nas bancas entre 1981 e 1993, totalizando 62 números de Mestres do Terror e    52 de Calafrio. As revistas se destacavam pelas capas fantásticas, histórias marcantes e reportagens sobre histórias em quadrinhos. Lembro de literalmente caçar estas revistas em sebos, não apenas pelas histórias, mas também para ler as reportagens. Em uma época pré-internet as reportagens eram uma fonte valiosa de informações.

Mas não é sobre estas edições clássicas de Mestres do Terror e Calafrio que pretendo escrever agora. Pretendemos comentar sobre as novas edições das revistas Calafrio e Mestres do Terror, editadas por Daniel Sacks, revistas independentes publicadas através do selo Ink&Blood.

A nova edição contou com a autorização e incentivo do próprio Rodolfo Zalla, de acordo com o texto “Elegia” publicado em homenagem a falecimento de Zalla na edição 55 de Calafrio, e por isso continua a numeração das clássicas revistas dos anos oitenta. O conteúdo das duas revistas é bastante similar, tanto na estética, como na proposta editorial das suas versões anteriores.

O gênero terror é um dos que melhor foram desenvolvidos no Brasil, existe toda uma estética e um jeito de contar histórias de terror que é característico do brasileiro, mas, devido à crise financeira dos anos noventa, mesmo o terror nacional não conseguiu sobreviver, abatido pelo fracasso das políticas econômicas de então. Agora estas clássicas revistas de terror nacional pretendem mais uma vez matar seus leitores de susto.

Como amostra do material publicado vou comentar as edições 55 e 56 de Calafrio, e 65 e 66 de Mestres do Terror e a edição especial “Calafrio Apresenta: Mangue Negro”, para que o leitor tenha uma ideia do material disponível nas novas edições destas clássicas revistas.

 

Calafrio 55 traz um apanhado de histórias evocando os mistérios dos mares e oceanos, muito presentes em narrativas do imaginário popular, já que podem ser o habitat de criaturas pré-diluvianas ou civilizações esquecidas.   “O Navio do Terror” de Luiz Saidenberg é uma clássica história de um fantasma que aterroriza um navio; “A Bruxa afogada” de Rodolfo Zalla é uma história sobre maldição e coincidências e “Treze anos no Mar” é a quadrinização de uma história real e misterioso sobre o congelamento da tripulação de um navio. Fugindo do tema principal, em “Pesadelo” de Gian Danton e Antônio Lima, um jovem professor desperta antigas e tenebrosas lembranças ao ir trabalhar no colégio em que estudou.

Para completar, assim como nas edições clássicas, temos as reportagens: uma biografia de Tony Fernandes e a primeira parte do artigo “Editores Nacionais que fizeram história nos Quadrinhos” ambas assinadas pelo editor Daniel Saks; e uma seção de cartaz bastante recheada, com diversos comentários dos leitores, que se repete em todas as edições de Calafrio e Mestres do Terror.

Calafrio 56 republica a saga “Zona do Crepúsculo”, anteriormente publicada em diversas revistas, e aqui reunida na integra. A saga é de autoria de Bené Nascimento (arte e roteiro das duas primeiras histórias e arte da terceira e quarta história) e Gian Danton (roteiro da terceira e quarta histórias); ambos são biografados na coluna “Quem é quem nos quadrinhos?” de Daniel Sacks. Comentando como foi estabelecida a parceria entre eles, Gian Danton escreve o texto “Uma dupla na Zona do Crepúsculo”. As quatro histórias são “Zona do Crepúsculo” em que um ladrão ameaça o dono de um antiquário, e tem uma terrível surpresa; “Sonhos de Outono” sobre ganância e tragédia; “Belzebu” o lorde das moscas e “Monólogo” em que as quatro histórias são amarradas. A revista termina com a republicação das HQs do Estúdio D-Arte “O Castelo do Conde Drácula” de Lyrio Aragão e “…Mostro debaixo da cama!” de Sidemar e Rubens Cordeiro.

Mestres do Terror 65 se destaca por dois interessantes personagens Zora, a mulher lobo e Saci Albino, autênticos monstros brasileiros, que tem um potencial enorme para séries recorrentes e projetos transmídias. Na primeira história “O Palácio dos Demônios” de Sidemar de Castro e Rodolfo Zalla encontramos Zora, a mulher lobo em uma trama envolvendo antigos livros de magia, feiticeiros árabes e uma fuga do inferno; em “Dia do caçador” de Fabio  H. Chibilski (roteiro), Alexandre R. Silva (arte) e Cideglei Vantroba (arte-final) caçadores encontram com o Saci Albino, e descobrem que a floresta tem seus próprios meios de se proteger; “Loira Fantasma” de Gian Danton (roteiro) e A- Lima (desenhos) retoma uma antiga lenda urbana em uma história de vingança, o leitor mais atento vai notar na página 41 que o roteirista tem um desejo secreto de possuir uma livraria; para finalizar na terceira e quarta capaz temos outra história do Saci Albino “A Encruzilhada” em que fica patente que o homem de bem nada precisa temer dos “monstros”. O editor Daniel Sacks escreve um interessante e informativo texto sobre “Os primórdios de Sandman no Brasil” e outro texto “Os sebos perderam a noção” em que critica o aumento abusivo do preço de gibis nos sebos, decorrentes de um mercado em que os vendedores se pautam pelos preços irreais de alguns sites de vendas.

Mestres do Terror 66 (quem sabe um dia chagaremos ao 666) se destaca logo pela presença da maior criação do cinema de terror brasileiro, o imortal Zé do Caixão. Com roteiro de José Mojica Marins, desenhos de Laudo Ferreira e arte-final de Omar Viñole “Zé do Caixão e a Cobra Maléfica” é uma típica história do personagem, que busca há mulher perfeita para ter um filho, mas aqui pode acabar tendo uma desagradável surpresa; “Olhos” de Raul Galli Alves retoma o personagem Frankenstein e sua busca por uma noiva; “Vlad – Lição de Empalamento” de Sérgio Mhais (roteiro) e Rafael Mateus Feliczaki (arte), biografa a juventude de Vlad como prisioneiro dos otomanos e como isso mudou sua vida; “O ator vampiro” de Antonio Rodrigues é uma linda homenagem ao inesquecível ator Bela Lugosi, o eterno Drácula; por fim “Seleção Natural” é a terceira parte de uma história pós-apocalíptica em que vampiros dominam o mundo. Sidemar de Castro escreve também o texto “Os vampiros do cinema e as HQs” relacionando as influências mutuas nestas duas mídias distintas.

A edição especial “Calafrio Apresenta: Mangue Negro” tem por objetivo a reunião em uma única edição, de uma série de histórias já publicadas anteriormente, que se passam no universo ficcional do “Mangue Negro”, criado pelo cineasta Rodrigo Aragão. Estamos falando de zumbis, criaturas que tiveram um revival nos anos dois mil, em grande parte devido a série de quadrinhos e depois de TV “The Walking Dead”. Entretanto, tanto nos filmes de Aragão, quanto nas HQs deste volume, é possível identificar uma nova forma de trabalhar com este monstro para além da estética tipicamente norte-americana.

As três primeiras histórias contam com arte e texto de Rodolfo Zalla, e as duas últimas com texto de Sidemar de Castro e arte de Zalla, todas aterrorizadas com a presença nefasta dos zumbis capixabas. Na primeira história, “Mangue Negro!”, acompanhamos as desventuras de dois bandidos que escolhem o pior lugar do mundo para esconder o fruto de seus crimes; já em “O Espantalho Sardento” um casal de fazendeiros norte-americanos descobre os zumbis brasileiros; na terceira história, também intitulada “Mangue Negro”, uma menina encontra sua mãe biológica já falecida; a quarta história mantém o título de “Mangue Negro” na qual acompanhamos uma agente da polícia perseguindo um assassino serial em meio ao mangue e zumbis; na quinta e última história  “Estação dos Zumbis” os “monstros” do pântano protegem um menino, filho de posseiros, que escapou de uma chacina, é a que melhor coloca em questão a realidade, muitas vezes esquecida, dos camponeses pobres do Brasil.

Por fim, está edição termina com dois textos, um escrito por Daniel Saks é uma biografia do cineasta Rodrigo Aragão, o outro, escrito por Sidemar, é uma matéria sobre os filmes de Rodrigo Aragão. É uma edição transmídia, pois conecta quadrinhos e cinema, fica aí um exemplo a ser seguido, afinal no Brasil poderíamos sim ter mais iniciativas deste tipo, de construção de universos ficcionais transmídias.

Nas cinco edições comentadas aqui não procuro de nenhuma forma esgotar uma avaliação crítica da nova publicação das revistas “Calafrio” e “Mestres do Terror”, procuro apenas dar um breve panorama do que esperar destas publicações. Como leitor das edições clássicas posso afirmar que o editor Daniel Saks consegue manter o padrão de qualidade de histórias e matérias que são marca registrada “Calafrio” e “Mestres do Terror”. Espero que o projeto tenha vida longa, e principalmente, que venha logo a alcançar mais que as quatro centenas de cópias que até agora são vendidas, chegando quem sabe a vender algumas milhares de cópias como na década de oitenta, o terror brasileiro merece.

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