Resenha: “Glória Sombria”

Roberto de Sousa Causo é um prolifico escritor e crítico literário de literatura especulativa, tem obras (livros, contos, noveletas) escritas em diversos subgêneros, que vão da fantasia heroica à ficção científica hard. Causo investe também em dois subgêneros que são pouco afeitos aos escritores brasileiros, a ficção ufológica e a ficção de guerra futura. Por ter grande interesse tanto em ufologia quanto em estudos sobre guerra, sempre fui um leitor atento à obra de Roberto Causo.
“Glória Sombria”, novo romance de Causo, é uma história de ficção científica do tipo space opera, com elementos de FC hard e guerra futura. Assim, temos batalhas espaciais ao estilo próprio da space opera; explicações científicas para a tecnologia e descrição do cenário espacial com bastante rigor técnico e científico, típicos da literatura hard; e uma preocupação com a descrição de armamentos e táticas de batalhas, que geralmente encontramos em romances de guerra futura. Uma composição mais ou menos equilibrada de aventura, ciência e militaria capaz de contentar até o leitor mais exigente.

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Acompanhamos no livro as aventuras de Jonas Peregrino, um soldado do século XXV, que terá a missão de construir uma tropa de elite capaz de realmente empreender uma derrota aos alienígenas inimigos Tadais — uma espécie alienígena que utiliza robôs na luta contra diversas outras espécies, inclusive os humanos, para dominar a Esfera, uma das regiões do espaço para onde os seres humanos se expandem. Existem outras.
É interessante destacar o papel que cabe no romance à tropa de elite de Peregrino, isso porque, na guerra moderna, é comum que muitas ações, principalmente as de maior eficiência, sejam empreendidas por tropas de elite. Assim, diversas nações atualmente possuem esse tipo de tropa, por exemplo o Nepal, com os Gurkhas, tropa conhecida por uso da faca kukri e de técnicas de artes marciais. Essa tropa, que aterrorizou os soldados argentinos na Guerra das Malvinas, é citada diretamente por Causo (geralmente ela é empregada a serviço do Império Britânico). Esse é um tipo de tropa que sempre foi decisiva em batalhas, tais como os Comandos de Reconhecimento da África do Sul; Fuzileiros Navais, Ranges e Boinas Verdes dos EUA; a SAE da Grã-Bretanha; ou mesmo os PARA-SAR, a Brigada de Operações Especiais e o Grupo de Mergulhadores de Combate da Marinha, três tropas de elite das forças armadas brasileiras. É a essa tradição de excelência militar que pertence Jonas Peregrino.
Nesse futuro, temos uma América Latina unida como um único bloco, concorrendo tanto com outros blocos de poder terrestres quanto com espécies alienígenas — mas também fazendo alianças com algumas dessas espécies, sendo decisiva, em toda a operação, a escolha por proteger os mais fracos por parte dos latinos.
Toda a história se passa no universo ficcional GalAxis, e Jonas Peregrino é um oficial da Frota Latinoamericana, outro grupo de histórias passadas nesse mesmo universo que giram em torno da caçadora de recompensas Shiroma. Assim, Causo criou um universo ficcional de expansão da espécie humana e contato com entidades alienígenas que podem lembrar ao fã de Perry Rhodan os primeiros ciclos da série, exceto por aqui não termos uma Humanidade unida sob um único governo. Inclusive, Jonas Peregrino é um leitor avido da série Perry Rhodan Ucronia: A Esfera, uma nova série de Perry Rhodan para os leitores do século XXV, como imaginada por Causo.
A leitura de “Gloria Sombria” certamente não desapontará o leitor de Perry Rhodan ou leitores acostumados com ficção científica hard e militar em geral. Um dos pontos fortes do livro, inclusive, é a preocupação do autor com os dados técnicos de armamentos, naves espaciais e hierarquia militar, um estilo de contar uma boa historia que eu realmente aprecio nos textos de Causo.

Referência:
CAUSO, Roberto de Sousa. Glória Sombria: a primeira missão do matador. São Paulo: Devir, 2013.

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Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto, filósofo e antropólogo.

Resenha publicada originalmente em:  Perry Rhodan [Olho para o Hiperespaço], Vol. 23, Episódio 890. Belo Horizonte, MG: Editora SSPG, Abril de 2016. (Ciclo Pan-Thau-Ra)

Capitalismo, democracia e o destino cósmico da humanidade.

A espécie humana, outrora confinada a um pequeno nicho ambiental na África, espalhou-se por todo o globo. Hoje exploramos, em quase todas as partes do mundo, os recursos energéticos disponíveis. É provável que um próximo ciclo exploratório venha a ocorrer no Ártico, devido aos efeitos do aquecimento global. Entretanto, grande parte dos seres humanos ainda vivem em situação lamentável de pobreza e miséria.

O grande desafio é como garantir um desenvolvimento social e econômico comparado ao europeu para essas populações (concentradas principalmente na América Latina, Ásia – sobretudo China e Índia – e África), sendo que os recursos do nosso próprio planeta são limitados – a menos que preferíssemos deixar a coisa como está e ficássemos indiferentes ao destino miserável e sub-humano de bilhões de pessoas (não, eu não errei, são bilhões mesmo). Para qualquer humanista como eu, tal hipótese deve ser descartada.

Podemos elencar algumas alternativas:

Implementar uma política socialista, onde todos os bens sejam igualmente divididos. Talvez resolveríamos um problema, mas criaríamos outros. Na maioria dos países socialistas, o problema da miséria não foi resolvido – caso da própria União Soviética –, além disso uma elite burocrática do partido era geralmente “mais igual” do que a média dos cidadãos. E, é claro, ainda que ataques à liberdade de escrever, de organizar-se e falar possam muitas vezes estar em perigo mesmo em regimes democráticos, tais liberdades foram sistematicamente destruídas nos, assim chamados, regimes socialistas, sem o contrapeso de uma sociedade civil forte para enfrentar os desmandos de ditadores que se viam como salvadores do povo (lembramos que nos países socialistas temos sempre a existência de um único partido político).

A segunda hipótese é conseguirmos, com o tempo, utilizar apenas energias renováveis, além – claro – de reutilizar e reciclar tudo o que utilizamos. Penso que é uma solução viável apenas se for acompanhada de uma mudança total em nosso estilo de vida, reduzindo o consumo ao máximo. Uma espécie de socialismo ecológico – que hoje em dia até funciona bem em poucas e restritas comunidades alternativas. Mas seria viável em escala global? Acredito ser muito difícil.

Por fim, podemos nos assumir como uma espécie cósmica, destinada a se espalhar pelo universo. Muitos veem a superpopulação em nosso planeta como resultado de nossa ganância e predativismo, eu vejo como um recado cósmico – como se o próprio cosmo nos alertasse de que este planeta é pequeno demais para nós, como foi a África para nossos ancestrais. Há dois planetas em nosso entorno (Marte e Vênus) e algumas luas de Júpiter e Saturno possíveis de serem terraformizados; além disso, há recursos minerais e energéticos quase infinitos na Lua e nos asteroides que nos rodeiam. E, ainda, fora do nosso Sistema Solar, planetas parecidos com a Terra, inclusive com a possibilidade de existir água, estão sendo descobertos.

Ficarmos presos na Terra diante de tal infinidade de possibilidades é tão incompreensível quanto seria se nossos ancestrais tivessem decidido ficar na África e ignorar os recursos disponíveis no restante do Planeta. Será que somos menos espertos e corajosos que nossos primitivos ancestrais?

Ao nos assumirmos como espécie cósmica, teremos a possibilidade de encontrar para a humanidade uma infinidade de novas possibilidades e recursos e, assim, garantir mais e melhores possibilidades de vida para todos os humanos. Ao optarmos por um sistema econômico capitalista e um sistema político democrático, forçosamente também optamos por um destino cósmico. Chegou a hora de seguir o exemplo de nossos antepassados africanos e iniciarmos a caminhada inexorável para um novo mundo, de infinitas possibilidades para todos os seres humanos.