A Lua: uma ponte para o homem na conquista do Universo

A Lua: uma ponte para o homem na conquista do Universo

A Lua, por ser o astro mais próximo da Terra, sempre teve um forte efeito sobre o imaginário popular. Não é por outro motivo que o astrônomo, matemático e astrólogo Johannes Kepler (1571-1630) em seu Somnium (O Sonho), escrito em 1611, descreve uma fantástica viagem à Lua, certamente um dos primeiros tratados de viagem interplanetária, fundador tanto da ficção científica quanto da especulação científica em torno da astronáutica.

Mais tarde, o escritor Júlio Verne (1828-1905), em Da Terra à Lua (1865) e À roda da Lua (1869), utilizou-se de sua farta imaginação e conhecimento técnico científico preciso para elaborar uma convincente narrativa da primeira viagem de um grupo de homens para a Lua. Verne imagina um canhão capaz de lançar um projétil para o nosso satélite natural. Sua descrição técnica é impecável, e certamente influenciou os autores da série Perry Rhodan, que traz por vezes incríveis desenhos técnicos de espaçonaves.

O projeto de engenharia aeroespacial em pleno século XIX é realizado pelo Clube do Canhão, que reúne um grupo de admiradores dessa arma bélica no empreendimento de construir o maior canhão já existente. Entre os financiadores do ousado projeto, Verne cita inclusive o Barão de Mauá, o primeiro grande empresário capitalista brasileiro, que em pleno o século XIX tentou industrializar o Brasil e foi até proprietário de banco nos Estados Unidos da América. A pouca vontade do governo brasileiro de então, junto a uma economia de exportação primária — café, açúcar, borracha e minérios —, retirou do Brasil a chance de uma industrialização ainda no século XIX, o que poderia ter reservado ao nosso país talvez o destino de se tonar uma potência mundial. Nesse caso, quem sabe a Stardust tivesse decolado da Barreira do Inferno ou Alcântara, e Perry Rhodan tivesse um nome português.

De qualquer forma, voltemos à Lua. Para todo leitor de Perry Rhodan, a Lua tem grande importância, afinal é nesse corpo celeste que Perry Rhodan aterrissa em sua primeira viagem ao espaço, ainda como major da força aérea americana, a bordo da Stardust. A chegada à Lua marca o encontro com os arcônidas Crest e Thora, a fundação da Terceira Potência e a posterior unificação da Terra em um único organismo político.

Não são poucos os escritores de ficção científica que previram e acreditaram que a conquista do espaço nos levaria a uma união política dada por objetivos comuns, entre eles podemos citar Arthur C. Clark, de 2001: Uma Odisseia no Espaço, Rama, A Cidade e as Estrelas, O Fim da Infância, entre outros; e Jorge Luís Calife, autor de Padrões de Contato.

Na realidade chegamos à Lua em 20 de julho de 1969, quando o Projeto Apollo, sob a administração da NASA, conseguiu afinal fazer com que a Apollo 11 levasse ao solo lunar os astronautas Neil A. Armstrong, Michael Collins e Edwin E. “Buzz” Aldrin. Não houve nenhum contato com seres extraterrestres como o tido por Perry Rhodan, mas ainda assim foi um grande passo para a Humanidade. Outras missões se seguiram: Apollo 12 (Charles Conrad, Richard Gordon e Alan Bean) em 1969; Apollo 13 (James Lovell, Fred Haise e John Sweigert) em abril de 1970, que nunca pousou devido a um acidente; Apollo 14 (Alan Shepard, Stuart Roosa e Edgar Mitchell) em fevereiro de 1971; Apollo 15 (David Scott, James Irwin e Alfred Worden) em julho de 1971; Apollo 16 (John Young, Thomas Mattingly e Charles Duke, Jr.) em abril de 1972; e Apollo 17 (Dr. Harrison Schmitt, Ronald Evans e Harrison Schmitt) em dezembro de 1972.

Posteriormente não houve mais interesse da NASA em enviar novas missões tripuladas à Lua. Por sua vez, a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) chegou a dar importantes passos em direção à conquista da Lua com as vinte e quatro missões Luna — sendo que a Luna 3 foi a primeira a fotografar o lado oculto da Lua, a Luna 9 depositou um engenho de 100kg na superfície lunar, a Luna 10 se tornou o primeiro satélite artificial da Lua, e a Luna 17 conduziu o Lunakhoad 1, veículo teleguiado de exploração da Lua, e outras missões colheram material lunar. Porém, o fracasso das tentativas feitas com o lançador soviético N1 deu um fim às ambições lunares dos soviéticos.

Em 1994, os americanos voltariam à Lua com a nave Clementine, de cunho militar e civil, e a missão permitiu a descoberta de depósitos de gelo na cratera Aitken. A Lunar Prospector, de 1998, teve por objetivo fazer um mapa global da composição da Lua.  Mas não foram apenas os americanos que retornaram à Lua, outros países têm se dedicado ao esforço de exploração lunar:

 

Japão: Hiten (1990), Kaguya (2007);

Índia: Chadrayaan 1 (2008);

Europa: SMART-1 (2003);

Estados Unidos: Reconnaissance (2009), Gravity Recovery and Interior Laboratory (2011), Lunar Atmosphere and Dust Environment Explorer (2013);

China:  Chang’e 1 (2007), Chang’e 2 (2010), Chang’e 3 (2013), Yutu (2014);

 

Apesar da preponderância dos Estados Unidos na exploração espacial, a China acena como principal substituta da antiga URSS  na exploração lunar, e é desse país que vem uma das melhores notícias em se tratando da volta do homem à Lua. A Agência Espacial Chinesa divulgou recentemente (julho de 2014) o sucesso de um teste de longa duração de seu protótipo para uma estação espacial lunar, parte de um programa consistente dos chineses de levar seus taikonautas para além da atmosfera terrestre, incluindo voos tripulados e uma estação espacial.

Segundo informações divulgadas, três pesquisadores, todos da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim, ficaram por 105 dias no Lunar Palace 1 (Yuegong-1) em total estado de isolamento.  De acordo com o site Inovação Tecnológica, a “instalação é composta por três módulos, com um volume interno de 500 metros cúbicos e ocupando uma área de 160 metros quadrados. A astrobase inclui uma sala de estar, sala de trabalho, dormitório, um banheiro e instalações para cultivo de plantas e criação de animais (minhocas), coleta de resíduos e reprocessamento dos rejeitos e da água”.

Se uma nação tem condições políticas e econômicas para uma missão dessa magnitude, certamente é a China, que inclusive foi o local em que Perry Rhodan pousou a Stardust quando voltou da Lua, dando início à Terceira Potência, que, afinal de contas, é o que a China é hoje (em termos militares, já que economicamente ultrapassou a Rússia). Talvez o futuro nos reserve uma Lua chinesa, ou melhor, que os planos chineses venham a mais uma vez despertar a vontade política de outros países para a conquista espacial, tornando a ficção científica um pouco mais próxima de nossa realidade cotidiana.

 

Obras consultadas:

DORMINEY, Bruce. Segredos guardados sob a superfície da Lua. Scientific American Brasil, nº 59, jun/jul de 2014.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Astronáutica: do sonho à realidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

SITE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. Base lunar da China é testada com sucesso na Terra. 02/07/2014. Online. Disponível em www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=base-lunar-china. Capturado em 09/07/2014.

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Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto, filósofo da astronáutica e antropólogo.

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Artigo publicado na coluna Filosofia da Astronáutica e da Ficção Científica – originalmente em:  Perry Rhodan [Bardioc], Vol. 51, Episódio 850. Belo Horizonte, MG: Editora SSPG, agosto de 2014. (Ciclo Bardioc). pp. 80-82

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