Comentário as “10 recomendações para planejar soluções de aprendizagem a distância”

Neste texto teceremos alguns comentários ao documento publicado pela UNESCO intitulado “COVID-19 : 10 recomendações para planejar soluções de aprendizagem a distância ”. Devemos nos lembrar, que por ser uma agência da Organização das Nações Unidas, as recomendações da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) devem compreender desde países ricos de primeiro mundo como as nações europeias, até países pobres da África, ou países em desenvolvimento como o Brasil.

Sendo assim as recomendações são genéricas o suficiente, em nosso entender, para dar conta destas distintas realidades. Para uma análise mais acurada, passamos a citar o texto da UNESCO que se encontra disponível em: https://pt.unesco.org/news/covid-19-10-recomendacoes-planejar-solucoes-aprendizagem-distancia, e foi acessado em: 28/04/2020.

Primeira recomendação da UNESCO:

1. Examine a disponibilidade e escolha as ferramentas mais relevantes.
Decida sobre o uso de soluções de alta e baixa tecnologia com base na confiabilidade das fontes de energia locais, conectividade à internet e habilidades digitais de professores e estudantes. Isso pode variar desde plataformas integradas de aprendizagem digital, videoaulas, cursos online abertos e massivos (MOOCs, na sigla em inglês) até a transmissões por meio de estações de rádio e TV.

Nesta primeira recomendação, podemos verificar que o documento aponta diversas possibilidades de ensino a distância, que vão desde a internet até rádio e TV. Devemos nos lembrar que cursos realizados por TV já foi uma realidade no Brasil, bem como por rádio, e até por correspondência, sendo que estes meios são mais acessíveis do plataformas educacionais, tendo o próprio governo do Estado de São Paulo ter optado pelo recurso da TV neste momento de crise.
Assim cada escola deve fazer a opção pelo recurso de acordo com sua realidade. Tendo em vista nossa própria experiência, podemos salientar que, dependendo das condições materiais e humanas disponíveis, o processo pode ser feito de forma eficiente, por exemplo, em grupos do Facebook, ou utilizando de outros recursos.

Segunda recomendação da UNESCO:

2. Garanta a inclusão dos programas de educação a distâncias. Implemente medidas para garantir que os estudantes, incluindo aqueles com deficiência ou de baixa renda, tenham acesso a programas de educação a distância, mesmo se apenas um número limitado deles tiver acesso a dispositivos digitais. Considere descentralizar temporariamente esses dispositivos dos laboratórios de informática para as famílias e apoiá-los quanto à conectividade à internet.

Em um país como o Brasil, garantir o acesso de alunos de baixa renda, é realmente o maior desafio que será enfrentado por todas as redes de ensino. Devemos nos lembrar, que mesmo tendo um índice grande de celulares por habitante, a posse deste hardware não significa necessariamente estar conectado a uma internet de qualidade ou possuir conhecimento de ferramentas digitais que permitam uma utilização adequada de plataformas educacionais ou outros softwares e redes sociais que possam ser utilizadas para fins educativos.
A solução apontada pela UNESCO, de fornecer equipamentos da própria escola, além de enfrentar claros problemas legais, que podem existir em diferentes países, não leva em consideração, que mesmo a maioria das escolas não tem equipamentos suficientes para atender tal demanda. Assim uma reflexão que podemos fazer aqui, é a de que este pode ser um momento para abandonarmos de vez o suporte de papel (livros e apostilas) e investir em hardware para os alunos, se todos os alunos, de escolas públicas e privadas, tivessem atualmente seus tablets educativos individuais, aulas remotas não seriam um problema. Está na hora de abandonar o papel e da escola realmente se tornar digital.

Terceira recomendação da UNESCO:

3. Proteja a privacidade e a segurança dos dados. Avalie a segurança dos dados ao realizar o upload de dados ou recursos educacionais nos espaços da internet, bem como ao compartilhá-los com outras organizações ou indivíduos. Verifique se o uso de aplicativos e plataformas não viola a privacidade dos dados dos estudantes.

Aqui o documento da UNESCO nos alerta sobre a questão da segurança e privacidades dos dados, principalmente com relação a alunos menores de idade. Neste caso, é importante, que os responsáveis, acompanhem seus filhos e tenham ciência do que compartilham nas redes, assim como plataformas educacionais sejam seguras.

Quarta recomendação da UNESCO:

4. Priorize soluções para enfrentar os desafios psicossociais antes de ensinar. Mobilize as ferramentas disponíveis para conectar escolas, pais, professores e estudantes uns com os outros. Crie comunidades para garantir interações humanas periódicas, para permitir medidas de assistência social e para abordar desafios psicossociais que os estudantes podem enfrentar quando estão isolados.

O isolamento, como salienta o documento, pode acarretar problemas psicossociais em algumas pessoas, tanto alunos, como professores ou pais e responsáveis. Assim a própria possibilidade de interação em comunidades virtuais, pode ser uma forma de minimizar os desafios decorrentes deste processo de isolamento social.

Quinta recomendação da UNESCO:

5. Planeje o cronograma de estudos dos programas de ensino a distância. Organize discussões com as partes interessadas para examinar a possível duração do fechamento da escola, assim como para decidir se o programa de educação a distância deve se concentrar no ensino de novos conhecimentos ou no aprimoramento do conhecimento dos estudantes a respeito das lições anteriores. Planeje o cronograma, dependendo da situação das áreas afetadas, do nível de estudos, das necessidades dos estudantes e da disponibilidade dos pais. Escolha as metodologias de aprendizagem adequadas, com base na situação do fechamento das escolas e quarentenas em casa. Evite metodologias de aprendizagem que exijam comunicação “cara a cara”.

Aqui o documento traz dois desafios, a reorganização de um calendário escolar em tempos de epidemia, lembrando que não se sabe quanto tempo irá durar o isolamento social e os conteúdos a serem trabalhados de forma remota. A questão do calendário escolar, como salienta o documento, deverá ser feito por cada rede educacional, ou escola, no caso das particulares, a fim de cumprir as exigências educacionais presentes na legislação. Já os conteúdos, dependendo da metodologia escolhida, podem ter o caráter de revisão, ou de conteúdo novo.

Sexta recomendação da UNESCO:

6. Forneça apoio a professores e pais no uso de ferramentas digitais. Organize breves sessões de treinamento ou orientação para professores e pais, caso sejam necessários monitoramento e facilitação. Ajude os professores a preparar as configurações básicas, como soluções para o uso de dados da internet, caso seja exigido deles o oferecimento de aulas ao vivo (live streaming).

Neste cenário, em que todos foram pegos de surpresa por uma pandemia, o que torna necessário o ensino remoto, tanto professores como alunos, podem enfrentar dificuldades na utilização de ferramentas tecnológicas apropriadas, lembrando, que no dia a dia, até então, as escolas pouco utilizam, em sua maioria, este tipo de ferramenta. Em geral lousas, livros e cadernos estão mais presentes do que recursos tecnológicos, em uma realidade em que ninguém mais escreve textos manuscritos, a preocupação com a escrita de letra cursiva ou do aluno ter “letra bonita” ainda é mais presente, mesmo sendo habilidades inúteis, do que a utilização de recursos tecnológicos, e o ensino, por exemplo, da digitação.

Sétima recomendação da UNESCO:

7. Combine abordagens adequadas e limite a quantidade de aplicativos e plataformas. Combine ferramentas ou mídias que estão disponíveis para a maioria dos estudantes, tanto para a comunicação e aulas sincronizadas, quanto para a aprendizagem sem sincronização. Evite sobrecarregar os estudantes e os pais, ao solicitar que eles realizem o download e testem muitos aplicativos ou plataformas.

Aqui o documento chama a atenção para um problema que pode acarretar em uma sobrecarga de trabalho tanto para o professor, como para alunos e pais, que é a utilização de diversos aplicativos, mídias sociais e plataformas, que podem saturar e levar ambos a um “desanimo” com o ensino remoto. É necessário neste caso lembrar do dito popular que diz que as vezes “menos é mais”.

Oitava recomendação da UNESCO:

8. Desenvolva regras de educação a distância e acompanhe o processo de aprendizagem dos estudantes. Defina as regras da educação a distância com pais e estudantes. Elabore perguntas, testes ou exercícios formativos para monitorar de perto o processo de aprendizagem dos estudantes. Tente usar ferramentas para dar suporte ao envio de comentários pelos estudantes, bem como evite sobrecarregar os pais ao solicitar que eles digitalizem e enviem os comentários dos estudantes.

Pensar em uma avaliação continua dos alunos, sem ao mesmo tempo sobrecarregar os pais, que em sua maioria podem estar exercendo atividades profissionais. Devemos então levar em consideração que não se pode exigir, principalmente dos alunos menores, que cumpram a mesma carga horária de quando estão em aula presencial, mais tarefas.

Nona recomendação da UNESCO:

9. Defina a duração das unidades de educação a distância com base nas habilidades de autorregulação dos estudantes. Mantenha uma alocação de tempo coerente de acordo com o nível de autorregulação e das habilidades metacognitivas dos estudantes, especialmente para as aulas transmitidas ao vivo. De preferência, a unidade para estudantes da educação primária não deve ter mais do que 20 minutos, e deve ter, no máximo, 40 minutos para os estudantes da educação secundária.

Sabemos que os alunos tem um tempo relativamente curto de concentração, portanto é necessário que as atividades, principalmente aulas transmitidas ao vivo estejam de acordo com o desenvolvimento cognitivos dos alunos. É sempre bom lembrar que é um erro querer que o ensino remoto seja uma transposição do ensino presencial.

Decima recomendação da UNESCO:

10. Crie comunidades e aumente a conexão. Crie comunidades de professores, pais e gestores de escolas para tratar sobre os sentimentos de solidão ou desamparo, bem como para facilitar o compartilhamento de experiências e a discussão sobre estratégias de enfrentamento quando surgirem dificuldades de aprendizagem.

Sendo o processo de ensino remoto algo novo, para todos os envolvidos, o documento salienta a importância de compartilhar experiências, tendo em vista que estamos em uma situação de práxis, como define Paulo Reglus Neves Freire, em que prática e reflexão teórica sobre está prática ocorrem simultaneamente. Estamos diante da construção de novas práticas pedagógicas e reflexões teóricas em simultaneidade com o trabalho desenvolvido.

Para concluir, devemos salientar, que estas propostas devem ser lidas e adaptadas para cada realidade educacional. Não devemos esquecer que o Brasil é um dos países com maior desigualdade social do mundo, está desigualdade se torna mais ainda acentuada quando se tem em vista o acesso a novas tecnologias digitais. Assim cabe a cada rede de ensino tentar sanar ao máximo este problema estrutural, que poderá ser resolvido plenamente, apenas com uma mudança estrutural em nossa sociedade.

 

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto, Marília/SP, texto escrito em 28/04/2020

Metodologias ativas de aprendizagem no desenvolvimento da autonomia do educando

Recomendo a leitura do artigo “Metodologias ativas de aprendizagem no desenvolvimento da autonomia do educando” do qual sou um dos autores.
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O texto foi produzido como parte das exigências acadêmicas do curso “A escola dos meus sonhos” ministrado pelo professor Moacir Gadotti no EaD do Instituto Paulo Freire.

Segue o texto para download:

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Problemas Brasileiros: Transporte de cargas e matriz energética.

Independentemente de ser a favor ou contra a atual greve dos caminhoneiros, ela coloca em evidência os problemas gerados por sucessivos governos, desde Juscelino Kubitschek (incluindo militares, e governos de direita e de esquerda) terem feito a opção preferencial pelas rodovias (e portanto caminhões) para o transporte de cargas. O Brasil tinha uma malha ferroviária que foi sucateada e privatizada, quando deveria ter sido expandida. Também abandonamos a minguá o transporte por hidrovias, sendo que temos o maior potencial hidroviário do mundo. Assim o resultado é um país-continente dependendo quase que unicamente do transporte rodoviário. Agora caminhoneiros bloqueiam as rodovias, e o país para por completo. Independentemente do desfecho da greve, que fique a lição: investimento imediato em ferrovias e hidrovias; até porque o frete tende a ser muito mais barato no transporte hidroviário e ferroviário, do que é no transporte rodoviário.
O próximo enrosco virá com certeza do setor energético, mais uma vez, já que para compor nossa matriz energética fizemos a opção predominantemente pelas hidrelétricas, ao invés de também investir pesado em usinas nucleares (sim, defendo o investimento em energia nuclear) e fontes de energia renováveis (solar, eólica, etc.). Basta um período prolongado de seca para o espectro de um apagão pairar em nossas cabeças novamente.

Moral da história: devemos diversificar o máximo possível nosso sistema de transporte de cargas e de geração de energia.

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

PS: Texto publicado inicialmente no Facebook em 28/05/2018, em plena a greve.