C. S. Lewis: o criador da ficção científica teológica.

Sou um leitor voraz de biografias. Um dos primeiros livros de porte que li, ainda na pré-adolescência, foi uma biografia de Lawrence da Arábia escrita por Robert Payne (Bruguera, [S.D.]), mesma época em que lia também meu primeiro Perry Rhodan, “O Exército dos Fantasmas” (nº 145). Desde então, sou um leitor assíduo de biografias, e também de Perry Rhodan.

No quesito biografias, sou um leitor eclético: em minha estante pode-se encontrar a biografia do ex-ditador líbio Muamar Kadafi (Nova Cultura, 1987), junto à de Spock (ops!) Leonardo Nimoy (Mercuryo, 1997), do 007 Sean Connery (Landscape, 2002), do Barão de Mauá (Companhia das Letras, 2004), do orientalista Kurban Said (Record, 2007), ou do explorador Sir Richard Francis Burton (Companhia de Bolso, 2008), entre tantas outras.

Uma lacuna que existe nas biografias publicadas no Brasil são as de escritores de ficção científica. Infelizmente não temos traduções de biografias de grandes autores de FC no país: Isaac Asimov, Arthur C. Clark, entre outros, ainda não tiveram suas biografias vertidas para a língua de Camões.

Por hora, entretanto, temos em português a recente publicação da biografia de Cliver Staples Lewis (1898-1963) escrita por Alister McGrath e intitulada A Vida de C.S. Lewis: do Ateísmo às Terras de Nárnia (Mundo Cristão, 2013). Lewis é um conhecido apologista cristão — daí a publicação de sua biografia por uma editora religiosa —, acadêmico, crítico literário e escritor.

C S Lewis

Como escritor, Lewis é mais conhecido como autor das Crônicas de Nárnia, mas também escreveu uma trilogia de ficção científica — Trilogia do Resgate — em que cria um novo subgênero literário, a ficção científica teológica. Essa trilogia coloca Lewis como um dos autores europeus de ficção científica de maior relevância histórica.

Lewis é um autor cuja vida em si daria um bom romance: nascido na Irlanda, cujo status político era quase de colônia da Inglaterra (lembrando que atualmente Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia formam o Reino Unido), perdeu a mãe cedo, tendo sua vida emocional particularmente ligada à de seu irmão Warnie, principalmente após ser mandado pelo pai para um internato inglês.

McGrath relata a vida de Lewis desde sua educação inglesa até sua maturidade como escritor e acadêmico. Lewis tornou-se um especialista em crítica literária, área em que desenvolveu sua produção acadêmica. Porém, também nutria outras paixões literárias.

Apesar de ateu na juventude, mais tarde — em grande parte por intermédio das discussões com J.R.R. Tolkien (também acadêmico e escritor de O Senhor dos Anéis) — Lewis viria a se converter ao Cristianismo, mas, ao invés do Catolicismo de Tolkien, Lewis se tornaria o grande apologista cristão protestante da primeira metade do século XX. Segundo McGrath, é no período da II Guerra Mundial que Lewis, inicialmente em palestras radiofônicas e depois pelos seus livros, atingiria a fama mundial como apologista cristão.

Acadêmico, especialista em crítica literária e apologista cristão, Lewis perceberia na força do romance uma forma de divulgar suas ideias. Daí nasceriam suas duas grandes contribuições à literatura: a decalogia de fantasia As Crônicas de Nárnia e a trilogia de ficção científica Resgate. Vamos agora nos ater aos comentários de McGrath a essa trilogia.

Além do planeta silencioso

Biblioteca particular do autor. 

A Trilogia do Resgate é composta dos seguintes livros: Para Além do Planeta Silencioso (1938), Perelandra (1943) e Uma Força Medonha (1945); a escrita desses romances foi concomitante à intensa produção de Lewis como apologista cristão. Este resenhista teve a oportunidade de ler os três romances: Além do Planeta Silencioso (GRD, 1958), sendo que o editor Gumercindo Rochea Rorea (GRD) foi o primeiro a se dedicar com afinco a publicar livros de ficção científica no Brasil, e os outros dois em edições portuguesas: Perelandra: Viagem a Vénus (Europa-América, [S.D.]) e Aquela Força Medonha – Vol. 01 e 02 (Europa-América, [S.D.]).

Perelandra

Biblioteca particular do autor. 

Para Além do Planeta Silencioso tem como palco o planeta Marte; Perelandra, Vênus; e Uma Força Medonha, a Terra. No primeiro tenta-se impedir que os humanos venham a corromper os povos habitantes de Marte; no segundo tenta-se impedir a corrupção do primeiro casal venusiano (um novo Adão e uma nova Eva); e no terceiro, salvar a Humanidade caída e isolada do restante do Universo (por isso a Terra é o planeta silencioso). O enredo se centra no conflito entre Ransom e Weston, sendo que o primeiro representa a força do “Cristianismo puro e simples”, e o segundo, do cientificismo materialista.

O terceiro romance é particularmente interessante ao apresentar uma crítica severa de Lewis ao mundo acadêmico inglês — que não é muito diferente de tantos outros, inclusive do Brasil. Ao ler sua biografia, podemos ver, pelos conflitos que enfrentou em sua vida como professor, o porquê de sua crítica para com a academia.

Aquela força medonha

Biblioteca particular do autor. 

Segundo McGrath, Lewis era leitor de Júlio Verne e H.G. Wells, sendo que, para ele, escrever ficção científica era “um processo de expansão da alma”, nas palavras do próprio Lewis, citado por MacGrath: “a ideia de outros planetas exercia sobre mim uma atração violenta, peculiar, muito diferente de qualquer outro de meus interesses literários”.

A Trilogia do Resgate é uma resposta cristã de Lewis ao que ele considerava literatura de ficção científica materialista; de acordo com MacGrath, escritores de popularização científica, como J.B.S. Haldane e H.G. Wells, entre outros, utilizavam a escrita como forma de divulgar sua visão de mundo cientificista. Lewis se apercebe disso e resolve utilizar a ficção científica em favor de sua cosmovisão cristã de mundo.

Para McGrath, a intenção de Lewis era escrever “histórias, que cativam a imaginação e abrem a mente para uma maneira alternativa de pensar”. No caso, a maneira cristã e a crítica ao cientificismo. Lewis explora na Trilogia do Resgate temas teológicos interessantes, por exemplo: como fica a questão da queda e da salvação em um universo em que nós, seres humanos, não somos os únicos seres conscientes?; ele também crítica algumas e pseudo científicas, como a vivissecção e ideias eugenistas.

Lewis seria por toda a vida um acadêmico, publicando obras acadêmicas de relevância. Mas é sua escrita apologética e ficcional que o levaria a se tornar um importante intelectual público.

McGrath descreve a formação dos Inklings, grupo literário centrado em Lewis e Tolkien, mas que reunia outros escritores e acadêmicos da época para compartilhar e fazer críticas mutua a seus trabalhos. Uma parte considerável da biografia é concentrada no período em que Lewis escreve As Crônicas de Nárnia, cujo objetivo é o mesmo da Trilogia do Resgate: utilizar da literatura para debater temas teológicos.

Sendo a biografia de um intelectual e escritor, McGrath enfatiza os escritos de Lewis ao longo de sua vasta carreira de escritor, intelectual e acadêmico, mas não deixa de explorar o homem por trás dos livros: a difícil vida familiar, um possível romance socialmente mal visto com uma mulher mais velha e depois com uma americana, as amizades e inimizades, a luta por cargos na disputada universidade inglesa, a participação na I Guerra Mundial como soldado e na II Guerra Mundial como intelectual público.

Ao lermos biografias como essa de C.S. Lewis, uma porta é aberta, na qual vida e pensamento estão totalmente intrincados, em que as condições sociopolíticas e lutas cotidianas estão emaranhadas à produção intelectual. No fim de tudo, somos todos apenas homens tentando construir um entendimento do mundo que nos cerca e, por vezes, partilhando nossas ideias com outros homens. Lewis escolheu diferentes formas de se fazer presente no debate de ideias de sua época: apologética cristã, crítica literária acadêmica, fantasia e ficção científica.

Mesmo aqueles que venham a discordar da visão de mundo expressa por Lewis em sua Trilogia do Resgate ou nas Crônicas de Nárnia; não podem desconsiderar que ambas são obras importantes dentro de seus respectivos gêneros: ficção científica e fantasia. Para qualquer leitor desses dois gêneros literários, mesmo que não tenha maior interesse em questões religiosas, a biografia escrita por Alister McGrath é uma obra fundamental para a discussão da produção intelectual de ambos os gêneros e o conhecimento da vida e a obra de um dos escritores mais relevantes do século XX: C.S. Lewis.

 

MCGRATH, Alister. A Vida de C.S. Lewis: do Ateísmo às Terras de Nárnia. Trad. Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.

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Texto publicada originalmente em:  Perry Rhodan [O Lar dos Humanos], Vol. 54, Episódio 853. Belo Horizonte, MG: Editora SSPG, outubro de 2014. (Ciclo Bardioc). pp. 78-81.

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Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto, filósofo cristão e antropólogo.

Palestras sobre a vida e obra de C. S. Lewis podem ser marcadas com o autor em: edgarsmaniotto@gmail.com

lar dos humanos

A Lua: uma ponte para o homem na conquista do Universo

A Lua: uma ponte para o homem na conquista do Universo

A Lua, por ser o astro mais próximo da Terra, sempre teve um forte efeito sobre o imaginário popular. Não é por outro motivo que o astrônomo, matemático e astrólogo Johannes Kepler (1571-1630) em seu Somnium (O Sonho), escrito em 1611, descreve uma fantástica viagem à Lua, certamente um dos primeiros tratados de viagem interplanetária, fundador tanto da ficção científica quanto da especulação científica em torno da astronáutica.

Mais tarde, o escritor Júlio Verne (1828-1905), em Da Terra à Lua (1865) e À roda da Lua (1869), utilizou-se de sua farta imaginação e conhecimento técnico científico preciso para elaborar uma convincente narrativa da primeira viagem de um grupo de homens para a Lua. Verne imagina um canhão capaz de lançar um projétil para o nosso satélite natural. Sua descrição técnica é impecável, e certamente influenciou os autores da série Perry Rhodan, que traz por vezes incríveis desenhos técnicos de espaçonaves.

O projeto de engenharia aeroespacial em pleno século XIX é realizado pelo Clube do Canhão, que reúne um grupo de admiradores dessa arma bélica no empreendimento de construir o maior canhão já existente. Entre os financiadores do ousado projeto, Verne cita inclusive o Barão de Mauá, o primeiro grande empresário capitalista brasileiro, que em pleno o século XIX tentou industrializar o Brasil e foi até proprietário de banco nos Estados Unidos da América. A pouca vontade do governo brasileiro de então, junto a uma economia de exportação primária — café, açúcar, borracha e minérios —, retirou do Brasil a chance de uma industrialização ainda no século XIX, o que poderia ter reservado ao nosso país talvez o destino de se tonar uma potência mundial. Nesse caso, quem sabe a Stardust tivesse decolado da Barreira do Inferno ou Alcântara, e Perry Rhodan tivesse um nome português.

De qualquer forma, voltemos à Lua. Para todo leitor de Perry Rhodan, a Lua tem grande importância, afinal é nesse corpo celeste que Perry Rhodan aterrissa em sua primeira viagem ao espaço, ainda como major da força aérea americana, a bordo da Stardust. A chegada à Lua marca o encontro com os arcônidas Crest e Thora, a fundação da Terceira Potência e a posterior unificação da Terra em um único organismo político.

Não são poucos os escritores de ficção científica que previram e acreditaram que a conquista do espaço nos levaria a uma união política dada por objetivos comuns, entre eles podemos citar Arthur C. Clark, de 2001: Uma Odisseia no Espaço, Rama, A Cidade e as Estrelas, O Fim da Infância, entre outros; e Jorge Luís Calife, autor de Padrões de Contato.

Na realidade chegamos à Lua em 20 de julho de 1969, quando o Projeto Apollo, sob a administração da NASA, conseguiu afinal fazer com que a Apollo 11 levasse ao solo lunar os astronautas Neil A. Armstrong, Michael Collins e Edwin E. “Buzz” Aldrin. Não houve nenhum contato com seres extraterrestres como o tido por Perry Rhodan, mas ainda assim foi um grande passo para a Humanidade. Outras missões se seguiram: Apollo 12 (Charles Conrad, Richard Gordon e Alan Bean) em 1969; Apollo 13 (James Lovell, Fred Haise e John Sweigert) em abril de 1970, que nunca pousou devido a um acidente; Apollo 14 (Alan Shepard, Stuart Roosa e Edgar Mitchell) em fevereiro de 1971; Apollo 15 (David Scott, James Irwin e Alfred Worden) em julho de 1971; Apollo 16 (John Young, Thomas Mattingly e Charles Duke, Jr.) em abril de 1972; e Apollo 17 (Dr. Harrison Schmitt, Ronald Evans e Harrison Schmitt) em dezembro de 1972.

Posteriormente não houve mais interesse da NASA em enviar novas missões tripuladas à Lua. Por sua vez, a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) chegou a dar importantes passos em direção à conquista da Lua com as vinte e quatro missões Luna — sendo que a Luna 3 foi a primeira a fotografar o lado oculto da Lua, a Luna 9 depositou um engenho de 100kg na superfície lunar, a Luna 10 se tornou o primeiro satélite artificial da Lua, e a Luna 17 conduziu o Lunakhoad 1, veículo teleguiado de exploração da Lua, e outras missões colheram material lunar. Porém, o fracasso das tentativas feitas com o lançador soviético N1 deu um fim às ambições lunares dos soviéticos.

Em 1994, os americanos voltariam à Lua com a nave Clementine, de cunho militar e civil, e a missão permitiu a descoberta de depósitos de gelo na cratera Aitken. A Lunar Prospector, de 1998, teve por objetivo fazer um mapa global da composição da Lua.  Mas não foram apenas os americanos que retornaram à Lua, outros países têm se dedicado ao esforço de exploração lunar:

 

Japão: Hiten (1990), Kaguya (2007);

Índia: Chadrayaan 1 (2008);

Europa: SMART-1 (2003);

Estados Unidos: Reconnaissance (2009), Gravity Recovery and Interior Laboratory (2011), Lunar Atmosphere and Dust Environment Explorer (2013);

China:  Chang’e 1 (2007), Chang’e 2 (2010), Chang’e 3 (2013), Yutu (2014);

 

Apesar da preponderância dos Estados Unidos na exploração espacial, a China acena como principal substituta da antiga URSS  na exploração lunar, e é desse país que vem uma das melhores notícias em se tratando da volta do homem à Lua. A Agência Espacial Chinesa divulgou recentemente (julho de 2014) o sucesso de um teste de longa duração de seu protótipo para uma estação espacial lunar, parte de um programa consistente dos chineses de levar seus taikonautas para além da atmosfera terrestre, incluindo voos tripulados e uma estação espacial.

Segundo informações divulgadas, três pesquisadores, todos da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim, ficaram por 105 dias no Lunar Palace 1 (Yuegong-1) em total estado de isolamento.  De acordo com o site Inovação Tecnológica, a “instalação é composta por três módulos, com um volume interno de 500 metros cúbicos e ocupando uma área de 160 metros quadrados. A astrobase inclui uma sala de estar, sala de trabalho, dormitório, um banheiro e instalações para cultivo de plantas e criação de animais (minhocas), coleta de resíduos e reprocessamento dos rejeitos e da água”.

Se uma nação tem condições políticas e econômicas para uma missão dessa magnitude, certamente é a China, que inclusive foi o local em que Perry Rhodan pousou a Stardust quando voltou da Lua, dando início à Terceira Potência, que, afinal de contas, é o que a China é hoje (em termos militares, já que economicamente ultrapassou a Rússia). Talvez o futuro nos reserve uma Lua chinesa, ou melhor, que os planos chineses venham a mais uma vez despertar a vontade política de outros países para a conquista espacial, tornando a ficção científica um pouco mais próxima de nossa realidade cotidiana.

 

Obras consultadas:

DORMINEY, Bruce. Segredos guardados sob a superfície da Lua. Scientific American Brasil, nº 59, jun/jul de 2014.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Astronáutica: do sonho à realidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

SITE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. Base lunar da China é testada com sucesso na Terra. 02/07/2014. Online. Disponível em www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=base-lunar-china. Capturado em 09/07/2014.

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Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto, filósofo da astronáutica e antropólogo.

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Artigo publicado na coluna Filosofia da Astronáutica e da Ficção Científica – originalmente em:  Perry Rhodan [Bardioc], Vol. 51, Episódio 850. Belo Horizonte, MG: Editora SSPG, agosto de 2014. (Ciclo Bardioc). pp. 80-82

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Resenha: “Glória Sombria”

Roberto de Sousa Causo é um prolifico escritor e crítico literário de literatura especulativa, tem obras (livros, contos, noveletas) escritas em diversos subgêneros, que vão da fantasia heroica à ficção científica hard. Causo investe também em dois subgêneros que são pouco afeitos aos escritores brasileiros, a ficção ufológica e a ficção de guerra futura. Por ter grande interesse tanto em ufologia quanto em estudos sobre guerra, sempre fui um leitor atento à obra de Roberto Causo.
“Glória Sombria”, novo romance de Causo, é uma história de ficção científica do tipo space opera, com elementos de FC hard e guerra futura. Assim, temos batalhas espaciais ao estilo próprio da space opera; explicações científicas para a tecnologia e descrição do cenário espacial com bastante rigor técnico e científico, típicos da literatura hard; e uma preocupação com a descrição de armamentos e táticas de batalhas, que geralmente encontramos em romances de guerra futura. Uma composição mais ou menos equilibrada de aventura, ciência e militaria capaz de contentar até o leitor mais exigente.

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Acompanhamos no livro as aventuras de Jonas Peregrino, um soldado do século XXV, que terá a missão de construir uma tropa de elite capaz de realmente empreender uma derrota aos alienígenas inimigos Tadais — uma espécie alienígena que utiliza robôs na luta contra diversas outras espécies, inclusive os humanos, para dominar a Esfera, uma das regiões do espaço para onde os seres humanos se expandem. Existem outras.
É interessante destacar o papel que cabe no romance à tropa de elite de Peregrino, isso porque, na guerra moderna, é comum que muitas ações, principalmente as de maior eficiência, sejam empreendidas por tropas de elite. Assim, diversas nações atualmente possuem esse tipo de tropa, por exemplo o Nepal, com os Gurkhas, tropa conhecida por uso da faca kukri e de técnicas de artes marciais. Essa tropa, que aterrorizou os soldados argentinos na Guerra das Malvinas, é citada diretamente por Causo (geralmente ela é empregada a serviço do Império Britânico). Esse é um tipo de tropa que sempre foi decisiva em batalhas, tais como os Comandos de Reconhecimento da África do Sul; Fuzileiros Navais, Ranges e Boinas Verdes dos EUA; a SAE da Grã-Bretanha; ou mesmo os PARA-SAR, a Brigada de Operações Especiais e o Grupo de Mergulhadores de Combate da Marinha, três tropas de elite das forças armadas brasileiras. É a essa tradição de excelência militar que pertence Jonas Peregrino.
Nesse futuro, temos uma América Latina unida como um único bloco, concorrendo tanto com outros blocos de poder terrestres quanto com espécies alienígenas — mas também fazendo alianças com algumas dessas espécies, sendo decisiva, em toda a operação, a escolha por proteger os mais fracos por parte dos latinos.
Toda a história se passa no universo ficcional GalAxis, e Jonas Peregrino é um oficial da Frota Latinoamericana, outro grupo de histórias passadas nesse mesmo universo que giram em torno da caçadora de recompensas Shiroma. Assim, Causo criou um universo ficcional de expansão da espécie humana e contato com entidades alienígenas que podem lembrar ao fã de Perry Rhodan os primeiros ciclos da série, exceto por aqui não termos uma Humanidade unida sob um único governo. Inclusive, Jonas Peregrino é um leitor avido da série Perry Rhodan Ucronia: A Esfera, uma nova série de Perry Rhodan para os leitores do século XXV, como imaginada por Causo.
A leitura de “Gloria Sombria” certamente não desapontará o leitor de Perry Rhodan ou leitores acostumados com ficção científica hard e militar em geral. Um dos pontos fortes do livro, inclusive, é a preocupação do autor com os dados técnicos de armamentos, naves espaciais e hierarquia militar, um estilo de contar uma boa historia que eu realmente aprecio nos textos de Causo.

Referência:
CAUSO, Roberto de Sousa. Glória Sombria: a primeira missão do matador. São Paulo: Devir, 2013.

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Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto, filósofo e antropólogo.

Resenha publicada originalmente em:  Perry Rhodan [Olho para o Hiperespaço], Vol. 23, Episódio 890. Belo Horizonte, MG: Editora SSPG, Abril de 2016. (Ciclo Pan-Thau-Ra)